Diet, delivery, on sale, mouse: é comum ouvirmos hoje em dia críticas ao excesso de palavras em inglês na língua portuguesa. Em 1920, no entanto, o combate dos puristas era contra a invasão de palavras francesas, como mostra a dissertação de mestrado "'Português de gente branca' -- certas relações entre língua e raça na década de 1920", recém-defendida na Universidade de São Paulo. A autora, a pesquisadora Beatriz Protti Christino, analisa, sob a ótica da elite intelectual brasileira, a influência de línguas estrangeiras no português da época.
Beatriz leu e analisou três periódicos sobre lingüística que circularam durante quase toda a década de 20: a Revista de Língua Portuguesa, a Revista de Filologia Portuguesa e a Brasiliana. Os artigos escritos pelos colaboradores das três revistas -- na sua maioria advogados, médicos e jornalistas -- idealizavam um purismo lingüístico que defendia o uso da norma culta da língua portuguesa. Essa norma se afastava do padrão lusitano de então e conservava a tradição herdada por mestres da literatura como Rui Barbosa e Padre Antônio Vieira.
Na tentativa de defender a língua portuguesa, diversos colaboradores das revistas, como Mario Barreto (1879-1931) e Liberato Bittencourt (1869-1948), voltavam-se sobretudo contra galicismos (palavras emprestadas do francês). Beatriz listou todos os estrangeirismos apontados nos artigos e constatou que predominavam francesismos -- como petardo, bomba e barricada, na terminologia militar, ou gripe e torcicolo, na linguagem médica.
Muitas vezes, os artigos citavam ao lado da palavra importada o seu correspondente vernáculo. Coqueluche seria tosse convulsa; abajur, quebra-luz; envelope, sobrecarta; e attaché militar, adido militar. "Os autores acreditavam provar assim que o português não precisava da palavra forasteira", explica Beatriz.
Se por um lado essa defesa do português contra os francesismos demonstrava certa preocupação em salvaguardar a riqueza da língua portuguesa, por outro, era extremamente negligente, pois ignorava a contribuição das línguas africanas e indígenas para a formação da nossa língua. Beatriz concluiu que os puristas defensores do 'bom português', todos brancos e membros da elite, consideravam inferior o falar dos negros e índios presente na linguagem do povo brasileiro.
Um trecho de artigo de Nelson de Senna (1876-1952), que se interessou por estudar a contribuição de índios e negros africanos para a língua portuguesa, demonstra claramente essa visão preconceituosa, na qual o linguajar dos brancos se mostra distante das influências populares: "apenas os 'mestiços', em maior contato com a escravatura, modificaram o falar pelos vícios prosódicos do mísero e pisado preto".
"É impossível querer mudar a língua por decreto", diz Beatriz à CH on-line. "A língua está em constante modificação. Muitas das palavras que os artigos condenavam sumiram mas diversas foram assimiladas pelo uso."